Seu João: Honrando a tradição

Seu João Nelson de Oliveira, de 75 anos, tinha acabado de chegar da estância do Minuano, ele e outros moradores do abrigo estavam lá desde a manhã. Ele comentou que alguns dos moradores andaram em um cavalo manso que tinha por lá. Sentado em sua cadeira cativa no pátio do abrigo, Seu João começou a falar sobre sua história. Contou que nasceu em Santa Maria, mas morou em Porto Alegre na maior parte de sua vida. Lembrou-se dos tempos em que foi porteiro do Jóquei Clube em Porto Alegre.

Durante o tempo que morou na capital, gostava de frequentar os bailes gaúchos perto de casa. Sua paixão pela música gaúcha talvez venha desde a infância, com a influência do pai gaiteiro. “Ouvia Tonico e Tinoco”, ele diz. Foi também em Porto Alegre que conheceu sua companheira de vida, como que por acaso do destino, já que os dois eram de Santa Maria, mas só foram se cruzar na capital.

Sua mulher era modista e costurava para fora, enquanto ele ia aonde o trabalho estava. Por algum tempo, andou por muitas cidades, como Santo Ângelo, Santa Barbara e Santa Rosa, atrás de serviços como ferreiro de armação. Há o ferreiro que cuida da parte da fundição e o de armação que faz a montagem das peças. Entre um emprego e outro, trabalhou também na construção dos primeiros prédios da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

O pai era ferroviário e passou parte da infância em Júlio de Castilhos, onde a rotina do campo o fazia acordar às 5 horas da manhã. Quando vieram para Santa Maria, trabalhou nas pedreiras da ferrovia. Enquanto conversávamos, mais moradores iam chegando do passeio e Seu José, outro morador do abrigo, veio contar que tinha andado a cavalo. Seu José também nos conta que ele e seu João se conheceram jovens quando trabalharam juntos, depois cada um seguiu seu caminho e voltaram a se reencontrar no abrigo.

Entre uma tragada e outra, seu João, mesmo bem agasalhado com seu casaco preto e cachecol azul xadrez, reclama da chagada do frio. Pergunto do que gosta de fazer e ele diz que olha a novela “Velho Chico” e que quando tem bingo, adora participar.

 

Texto: Luan Moraes Romero, acadêmico de Jornalismo